Entrevista: "O cinema tem uma missão"
Aparentemente um jovem comum. É estudante de Jornalismo no interior de São Paulo, mora com os pais e o irmão mais novo. Mas não é tão comum assim. Matheus Siqueira, no alto dos seus 21 anos, é diretor na produção de um web-documentário para a Fiat e, entre outras coisas, passa seu tempo entre câmeras, filmes, livros e ideias. Muitas delas. Uma dessas ideias, inclusive, rendeu a ele uma indicação ao chamado Oscar da internet, o Streamy Awards. A indicação veio para outra produção que Matheus dirige: a série de ficção “Flying Kebab”, feita para ser veiculada na internet (para assistir o episódio nº 1 clique aqui). A websérie, que está no seu 6º episódio e já foi vista por cerca de 120 mil pessoas, de vez em quando conta com algumas ajudinhas do jornalista Marcelo Tas. O comandante da turma do CQC da Band é um dos maiores divulgadores do projeto.
Foi sobre o mundo do cinema e das webséries que conversamos com Matheus.
Matheus Siqueira - Surgiu de uma oportunidade que nós tivemos de ir para o Líbano. E, como sempre, a gente quis capturar a nossa realidade de alguma forma que a gente pudesse transmitir pra outras pessoas. Não sei porquê, mas é uma coisa que não consigo ficar sem fazer. Preciso registrar os momentos que eu vivo de alguma forma. Parece que, se eu não fizer isso, não vivi aquele momento. Então, comecei a pensar em jeitos de transmitir essa experiência pras ouras pessoas. Geralmente faço fotos ou documentários, mas aí, dessa vez falei: não, vamos mudar um pouco, vamos fazer um seriado de ficção. Daí surgiu uma ideia absurda baseada no TinTim, porque eu não fã do TinTim. A ideia era fazer alguma coisa meio que de aventura, nada a ver com o TinTim, mas criar alguma coisa que motivasse o personagem a ir pro Líbano. Aí lá a gente [Matheus, Cléderson – produtor associado da série – e Nando - personagem principal] desenvolveu a história.
Há uma diferença de linguagem sim. Não são muitas as diferenças, mas dá pra perceber que lá as imagens são bem mais poluídas, são mais ostensivas lá. Mas isso faz parte da cultura do Líbano. A cultura, a arte, são mais ostensivas, e isso se reflete na produção de TV. Além disso, também existem as diferenças em termos políticos. Lá, cada TV é relacionada a algum partido político e esse é relacionado com alguma religião. Então, as cores da TV são as próprias cores da religião que o canal “representa”.
MC – Pequenos filmes gravados para a web são diferentes das grandes produções cinematográficas em termos de ângulo e qualidade de imagem? Porquê?
Atualmente existem alguns filmes pra internet que possuem qualidade cinematográfica. São vídeos que produtoras fizeram especificamente para internet e fizeram isso utilizando grandes orçamentos. Se você tiver um orçamento como se fosse fazer um filme, você consegue fazer, pra internet, um filme com a mesma qualidade de cinema. O que vai mudar são os ângulos. Quando você vai ao cinema você está mergulhado numa tela gigantesca, numa sala escura e, por isso, a sua imersão no filme é muito maior. Quando você está no computador assistindo alguma coisa, você está com o Messenger aberto, Twitter aberto e mais um monte de coisas. Então, na web, você precisa chamar mais a atenção, tem que ter um ritmo mais rápido e o enquadramento não pode ser aberto. Porque no cinema você veria na tela uma pessoa vindo aos poucos, de longe, enquanto que no computador você veria só uma paisagem. Mas acho que a grande diferença entre web e cinema é que a web não tem o orçamento com o qual o cinema conta hoje. A internet não é tão valorizada quanto a TV ou o cinema. Então, tudo tem que se adaptar. Adaptar equipe, adaptar equipamento pra fazer uma coisa pequena, assim como um filme de baixo orçamento também precisa se equipar, se adaptar, pra fazer uma coisa menor.
Isso meio que corrobora pro fato de que foi uma boa websérie. Corrobora é uma palavra bonita, né? Me lembra abóbora... (risos) Verdade. Eu podia rimar, né? Fazer uma rima: corrobora com abóbora. (risos) Mas, então. Foi bom! Porque você percebe que no mundo da web ainda não há como você falar se uma coisa é boa ou não. Então é interessante ver o Flying nesses festivais. Porque por trás do Streamy tem uma academia internacional de produções televisivas pra internet. E ver que eles também gostaram é como se fosse um selo de qualidade.
Essa é uma pergunta complicada, né? É... Acho que tenho um gosto bem eclético. É que eu acredito que o papel do cinema é fazer as pessoas pensarem. É o mesmo que acontece na literatura, por exemplo. No ensino médio você para de ler Harry Potter - espera-se, pelo menos (risos) – e passa a ler uma literatura mais complexa porque você vai crescendo na sua literatura. Passa a ler Jorge Luis Borges, Machado de Assis, começa a ler os grandes autores. Você passa a ler autores que antes você não entendia porque eles trabalham inovando a linguagem e fazendo você pensar. Mas, se você parar pra analisar, no cinema, as pessoas passam a vida toda assistindo o mesmo tipo de filme. Não acontece uma evolução no jeito que elas se apropriam dessa linguagem e entendem essa linguagem. Aos 8 anos de idade a pessoa via Homem de Ferro, por exemplo e, hoje, se lançarem o Super Homem, as pessoas continuaram assistindo. Não que isso não seja bom, mas eu acho que o cinema tem o papel de fazer as pessoas entenderem uma nova linguagem, descobrirem novas coisas.
Recentemente eu assisti uma palestra com o Walter Salles e na palestra falaram sobre o papel da cinefilia – que é imbuir o cinema de uma missão cultural única. Dentro da cultura nós temos vários tipos de artes e o cinema tem uma missão específica dentro do campo das artes. Porque é através do cinema que você pode presenciar momentos de um outro país que você nunca sentiu lendo um livro, por exemplo. Então, em uma hora e meia, você consegue se integrar de tal forma na vida de uma pessoa, no movimento de um outro país, ou conhecer o modo de pensar de um diretor de tal maneira, que é difícil você ver tudo isso através de outra forma de arte que não seja o cinema.
Então, acho que meu gosto cinematográfico é por filmes que tragam uma nova visão sobre algo. Não precisa ser algo importante. Eu vi um documentário sobre o mordomo de um cara, mas foi super interessante. Trouxe uma nova visão de uma pessoa, uma pessoa simples, mas transformaram o mordomo num personagem tão interessante que, ao final, você se torna, se sente íntimo da pessoa.
Na verdade, o “Flying” nasceu no ano passado, logo após nosso entrevistado saber que passaria por uma experiência inusitada: ir para o Líbano produzir cerca de 200 vídeos-documentários para um canal de TV local.
Foi sobre o mundo do cinema e das webséries que conversamos com Matheus.
MaisCult – Como surgiu a ideia de produzir o Flying Kebab?
Matheus Siqueira - Surgiu de uma oportunidade que nós tivemos de ir para o Líbano. E, como sempre, a gente quis capturar a nossa realidade de alguma forma que a gente pudesse transmitir pra outras pessoas. Não sei porquê, mas é uma coisa que não consigo ficar sem fazer. Preciso registrar os momentos que eu vivo de alguma forma. Parece que, se eu não fizer isso, não vivi aquele momento. Então, comecei a pensar em jeitos de transmitir essa experiência pras ouras pessoas. Geralmente faço fotos ou documentários, mas aí, dessa vez falei: não, vamos mudar um pouco, vamos fazer um seriado de ficção. Daí surgiu uma ideia absurda baseada no TinTim, porque eu não fã do TinTim. A ideia era fazer alguma coisa meio que de aventura, nada a ver com o TinTim, mas criar alguma coisa que motivasse o personagem a ir pro Líbano. Aí lá a gente [Matheus, Cléderson – produtor associado da série – e Nando - personagem principal] desenvolveu a história.
MC – Lá no Líbano, além do Flying, você, o Cléderson e o Nando produziram vídeos para um canal de TV fechada. Existem diferenças entre a linguagem audiovisual brasileira e a libanesa?
Há uma diferença de linguagem sim. Não são muitas as diferenças, mas dá pra perceber que lá as imagens são bem mais poluídas, são mais ostensivas lá. Mas isso faz parte da cultura do Líbano. A cultura, a arte, são mais ostensivas, e isso se reflete na produção de TV. Além disso, também existem as diferenças em termos políticos. Lá, cada TV é relacionada a algum partido político e esse é relacionado com alguma religião. Então, as cores da TV são as próprias cores da religião que o canal “representa”.
MC – Pequenos filmes gravados para a web são diferentes das grandes produções cinematográficas em termos de ângulo e qualidade de imagem? Porquê?
Atualmente existem alguns filmes pra internet que possuem qualidade cinematográfica. São vídeos que produtoras fizeram especificamente para internet e fizeram isso utilizando grandes orçamentos. Se você tiver um orçamento como se fosse fazer um filme, você consegue fazer, pra internet, um filme com a mesma qualidade de cinema. O que vai mudar são os ângulos. Quando você vai ao cinema você está mergulhado numa tela gigantesca, numa sala escura e, por isso, a sua imersão no filme é muito maior. Quando você está no computador assistindo alguma coisa, você está com o Messenger aberto, Twitter aberto e mais um monte de coisas. Então, na web, você precisa chamar mais a atenção, tem que ter um ritmo mais rápido e o enquadramento não pode ser aberto. Porque no cinema você veria na tela uma pessoa vindo aos poucos, de longe, enquanto que no computador você veria só uma paisagem. Mas acho que a grande diferença entre web e cinema é que a web não tem o orçamento com o qual o cinema conta hoje. A internet não é tão valorizada quanto a TV ou o cinema. Então, tudo tem que se adaptar. Adaptar equipe, adaptar equipamento pra fazer uma coisa pequena, assim como um filme de baixo orçamento também precisa se equipar, se adaptar, pra fazer uma coisa menor.
MC - O Flying Kebab concorreu, no ano passado, ao Streamy Awards, prêmio voltado para a produção original de vídeos online. O Flying disputou na categoria Melhor Websérie Estrangeira. O que isso significou para a visibilidade da websérie?
Isso meio que corrobora pro fato de que foi uma boa websérie. Corrobora é uma palavra bonita, né? Me lembra abóbora... (risos) Verdade. Eu podia rimar, né? Fazer uma rima: corrobora com abóbora. (risos) Mas, então. Foi bom! Porque você percebe que no mundo da web ainda não há como você falar se uma coisa é boa ou não. Então é interessante ver o Flying nesses festivais. Porque por trás do Streamy tem uma academia internacional de produções televisivas pra internet. E ver que eles também gostaram é como se fosse um selo de qualidade.
E participar desse tipo de festival é bom porque, além de ter seu trabalho lá dentro, as pessoas podem comparar a sua produção com as outras e ter com isso uma perspectiva geral do que tá acontecendo no mundo [das webséries]. E ver também como você se encaixa nessa perspectiva.
A gente teve uma repercussão interessante, teve até um outro festival que o pessoal chamou a gente pra participar. Não foi uma repercussão gigantesca, mas teve. Na verdade, você não tem repercussões gigantescas com esse tipo de produção porque esse é um pequeno nicho de mercado. A não ser que você faça alguma coisa sobre internet, RPG ou, sei lá, ursinhos pandas espirrando (risos).
MC – Quem convive mais contigo percebe que você é, sim, apaixonado por cinema, mas não por todos os estilos de filme. Como você define seu “gosto cinematográfico”?
A gente teve uma repercussão interessante, teve até um outro festival que o pessoal chamou a gente pra participar. Não foi uma repercussão gigantesca, mas teve. Na verdade, você não tem repercussões gigantescas com esse tipo de produção porque esse é um pequeno nicho de mercado. A não ser que você faça alguma coisa sobre internet, RPG ou, sei lá, ursinhos pandas espirrando (risos).
MC – Quem convive mais contigo percebe que você é, sim, apaixonado por cinema, mas não por todos os estilos de filme. Como você define seu “gosto cinematográfico”?
Essa é uma pergunta complicada, né? É... Acho que tenho um gosto bem eclético. É que eu acredito que o papel do cinema é fazer as pessoas pensarem. É o mesmo que acontece na literatura, por exemplo. No ensino médio você para de ler Harry Potter - espera-se, pelo menos (risos) – e passa a ler uma literatura mais complexa porque você vai crescendo na sua literatura. Passa a ler Jorge Luis Borges, Machado de Assis, começa a ler os grandes autores. Você passa a ler autores que antes você não entendia porque eles trabalham inovando a linguagem e fazendo você pensar. Mas, se você parar pra analisar, no cinema, as pessoas passam a vida toda assistindo o mesmo tipo de filme. Não acontece uma evolução no jeito que elas se apropriam dessa linguagem e entendem essa linguagem. Aos 8 anos de idade a pessoa via Homem de Ferro, por exemplo e, hoje, se lançarem o Super Homem, as pessoas continuaram assistindo. Não que isso não seja bom, mas eu acho que o cinema tem o papel de fazer as pessoas entenderem uma nova linguagem, descobrirem novas coisas.
Recentemente eu assisti uma palestra com o Walter Salles e na palestra falaram sobre o papel da cinefilia – que é imbuir o cinema de uma missão cultural única. Dentro da cultura nós temos vários tipos de artes e o cinema tem uma missão específica dentro do campo das artes. Porque é através do cinema que você pode presenciar momentos de um outro país que você nunca sentiu lendo um livro, por exemplo. Então, em uma hora e meia, você consegue se integrar de tal forma na vida de uma pessoa, no movimento de um outro país, ou conhecer o modo de pensar de um diretor de tal maneira, que é difícil você ver tudo isso através de outra forma de arte que não seja o cinema.
Então, acho que meu gosto cinematográfico é por filmes que tragam uma nova visão sobre algo. Não precisa ser algo importante. Eu vi um documentário sobre o mordomo de um cara, mas foi super interessante. Trouxe uma nova visão de uma pessoa, uma pessoa simples, mas transformaram o mordomo num personagem tão interessante que, ao final, você se torna, se sente íntimo da pessoa.
Confira mais dicas do Matheus sobre websérie e cinema:
Foto: Arquivo pessoal / Matheus Siqueira
Liana Feitosa







1 comentários:
Esse é meu diretor predileto!
21 de junho de 2010 às 14:19Parabéns Matheus pela caminhada!
E a vocês pela revista!
Cinema com missão! Gostei disso!
"Metanoia" na tela é contigo mesmo!
Quando ganhar um oscar, não esquece dos
amigos de eoqhá!
Abraço
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