O efeito Lang Lang
Ele tornou-se uma celebridade no mundo da música clássica. Verdade. Quando se fala sobre o pianista chinês Lang Lang, tal afirmação não pode ser considerada uma avaliação pessoal. Com apenas 28 anos, ele é um dos maiores fenômenos musicais da atualidade e um dos intérpretes mais requisitados no cenário internacional. Para constatar isso basta olhar sua popularidade em meio aos grupos sinfônicos e o número crescente de suas aparições na mídia americana e europeia.Não é pra menos. Lang Lang é visto por alguns críticos, e pelas gravadoras, como um verdadeiro virtuosi. Jovem e talentoso, ele aprendeu bem a se relacionar com a imprensa em geral e, principalmente, com os canais de televisão. Detalhe. Se em 2008 você assistiu a abertura dos Jogos Olímpicos de Beijing, deve lembrar-se de que havia alguém tocando um piano vermelho. Pois bem, era ele, que hoje é uma das maiores personalidades culturais da China.
E para mostrar que acompanha os avanços do mercado tecnológico e provar que com novas ferramentas também é possível fazer música, durante um concerto, neste ano, ele tocou a obra The Flight of the Bumblebee, do compositor russo Nikolai Rimsky-Korsakov, não no piano, mas no até então recém lançado Ipad, da Apple. Veja abaixo.
No entanto, alguns críticos são de fato críticos em relação à sua atuação que, segundo eles, se apresenta cada vez mais como pop star. “Lang Lang = tragédia. Aos 19 anos de idade ele foi um dos pianistas mais surpreendentes que eu já ouvi, mas ele foi se arruinando musicalmente pelo seu próprio sucesso”, aponta a jornalista e novelista britânica Jessica Duchen, que frequentemente escreve para o jornal The Independent e para a revista Standpoint, além de já ter entrevistado os melhores músicos do mundo.
Outros acreditam que suas interpretações estão se tornando cada vez mais exibicionistas e vazias. Mas independentemente do que pensam os críticos, seu sucesso é tanto que nos últimos tem assinado uma infinidade de contratos artísticos e publicitários.
Um tênis da Adidas leva seu nome. Uma linha de pianos da renomada Stainway, também. Desde 2004 é embaixador da Unicef e recentemente criou a Lang Lang international music fundadition, uma fundação que busca identificar músicos talentosos entre 6 e 10 anos e dar suporte para que continuem a cultivar seus dons. Além disso, a instituição promove programas de educação musical em parceria com diversas entidades musicais. E, claro, possui um contrato milionário com a gravadora Deutsche Grammophon, o mais importante selo de música clássica.
Seu carisma garantiu-lhe até um padrinho importante. O pianista e maestro argentino Daniel Barenboim passou a ser uma espécie de tutor do menino prodígio. No vídeo abaixo, em inglês, Lang Lang conta um pouco de sua história e participa de uma verdadeira aula com Barenboim sobre a interpretação da Sonata nº 23 em fá menor, de Beethoven, também conhecida como Appassionata.
Além desse apadrinhamento, ele constantemente está à frente das melhores orquestras do mundo e toca com os mais renomados músicos e maestros.Mas para alcançar essa posição, o caminho não foi tão simples. Semelhante a história de vida do compositor alemão Ludwig Van Beethoven (1770-1827), Lang Lang foi educado desde os primeiros anos para ser o melhor pianista do mundo. O pai, um músico frustrado, deixou o emprego para dedicar-se a educação do filho, o que resultou em vários prêmios e uma sólida carreira internacional. Esses e outros fatos de sua vida estão registrados em sua autobiografia Uma jornada de Mil Milhas: Minhas história, um depoimento feito a David Ritz e que já está disponível em português.
Recentemente, uma espécie de documentário em forma de seriado sobre sua carreira foi produzida e disponibilizada na internet. O trabalho mostra suas viagens, seu relacionamento com o público, seus gostos e diversas curiosidades sobre a vida do pianista. O título não poderia ser outro: The Lang Lang effect (O efeito Lang Lang).
Com esses feitos ele quebrou o velho tabu de que músicos são conservadores, sérios e desligados de qualquer forma de tecnologia. Basta ver, por exemplo, as capas de seus cds, que trazem uma roupagem jovem e fogem dos moldes tradicionais. E foi com esse público que ele aprendeu a se relacionar, assim como ele, e despertar a atenção deles para as mesmas músicas que são tocadas há séculos nas salas de concerto.
Você ainda vai ouvir sobre ele.







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