terça-feira, 22 de junho de 2010

Livros encantados e filmes adaptados, funcionam?

Cada vez mais as telonas vêm reproduzindo os Best Sellers das livrarias, mas será que reproduzem mesmo? Atualmente livros entram no ranking dos mais vendidos e bilheterias estouram quase que simultaneamente. É o livro que faz vender o filme, é o filme que faz o livro voltar a ser vendido. A relação é quase matrimonial, mas será que é fiel?

Desde o surgimento do cinema essa película cinematográfica esteve intimamente ligada a literatura. Para quem não lembra nada muito marcante antes de Harry Potter e Senhor dos Anéis, um nome com certeza refrigerará a memória de todos: Sheakespeare!
Clássicos das prateleiras sempre são dignos de espaço nas bilheterias em novas adaptações, cada vez mais tecnológicas, procurando se aproximar do maior efeito especial que possa existir, a imaginação. Exemplo recente de Tim Burton, com sua versão 3D de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, que chegou a faturar 265,8 milhões de dólares nos Estados Unidos, nas primeiras três semanas após sua estréia.

A fábrica de sonhos Disney é mestre em transformar contos de fadas em personagens visuais, mas se engana quem acha que as adaptações são fortes apenas para o público infanto-juvenil. No ranking do American Film Institute (AFI), versão 2007, entre os filmes mais importantes da história do cinema, dos 100 indicados, 42 foram adaptados ou inspirados em romances ou contos, sete em livros de não-ficção, cinco em musicais ou peças de teatros, restando então 46 roteiros ditos originais. Entre as adaptações mais marcantes estão Rastros de ódio, O tesouro de Sierra Madre, Psicose, A primeira noite de um homem, Tubarão e O silêncio dos inocentes.

Mas como fica o item fidelidade? Verdade seja dita, não há como expressar minuciosamente centenas de páginas repletas de detalhes em 90 ou 120 minutos. Mesmo no caso de Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei com seus 201 minutos, as 364 páginas não estão completamente descritas nas películas cinematográficas. De acordo com a revista norte-americana Entertainment Weekly, alguns elementos acabam se perdendo nas adaptações para o cinema, não são raros os casos de produções desastrosas alvos de críticas. Aos diretores e roteiristas cabe o profissionalismo e sensibilidade de captar a “alma” da historia escrita.

É nesse ponto em que a polêmica cresce, aparece e escandaliza, e a questão livro ou filme sempre paira no ar. Para o estudante do 5º ano de Engenharia Civil, Heitor Gondim, a pior adaptação de livro que já viu é o recente O Ladrão de Raios, o primeiro exemplar da série Percy Jackson de Rick Riordan. A ausência do deus Ares e sua filha, o aparecimento da esposa de Hades, que não consta no livro, do monstro Hidra, que só irá dar o ar de sua graça no segundo exemplar, além do vilão do filme não ser o do livro são aspectos que descaracterizaram a história original. “O filme muda a história em pontos fundamentais, tiram personagens, acrescentam outros e exclui trechos importantes do livro que daria continuação a saga”. Afirma o universitário.

Expectador dos quatro primeiros filmes de Harry Potter e leitor da série, Heitor Gondim considera , dentre as adaptações que já viu, as do menino bruxo as mais fiéis ao original. Outro que segue bem a literatura é o filme Odiséia, já Watchmen e Eragon tem o seu final cinematográfico modificado do livro. Mas entre livros e seus respectivos filmes o universitário prefere a opção escrita “Se for para escolher sempre optarei pelo livro. É nele que esta contido a história por completo com todos os detalhes”. Enfatiza o estudante Heitor.

As histórias em quadrinhos também são um prato cheio para as produções de cinema que também andam pelos mesmos caminhos tortuosos das adaptações de livros. Em relação as versões audiovisuais de quadrinhos o universitário do 4º ano de publicidade e propaganda, Everson Torres, considera Batmam um dos mais fiéis as revistas, considerando que em HQ o enredo não está em apena um ou três volumes, mas em uma sequência de exemplares. “Dos filmes que vi sobre quadrinhos Batman foi o mais perto do original, já em Homem-Aranha houveram detalhes que fugiram da história”. Relata o estudante de publicidade Everson Torres.

Outras HQs que acompanha e que viu nas telonas foram Homem de Ferro, Electra, Demolidor, Hulk, O Justiceiro, Quarteto Fantástico e 300. “De todos que vi o melhor é 300.. até os takes do filme simulam bem as cenas desenhas nos quadrinhos”. Enfatiza o universitário. Que também comenta o bom resultado obtido em As Crônicas de Nárnia - O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa (livro de C.S. Lewis, roteiro para cinema de Ann Peacock). “Sempre os livros são bem melhores que os filmes, no qual muitos não são fiéis ao original, mas os bem adaptados valem a pena ver”. Ressalta o estudante Everson Torres.

O professor de Crítica de Mídia para o curso de jornalismo, Allan Novaes atenta para a desmistificação do conceito fidelidade relacionado a livros e cinema. “Precisa desmistificar o fato de que o filme deve retratar toda a obra, além de utópico é inviável na visão de mercado, são muitos detalhes que se fossem convertidos ao cinema teríamos filmes de mais de 6horas”. Esclarece o professor Allan.

A. Novaes lembra que o filme é uma arte distinta do livro. Ao cineasta cabe escolher a abordagem adequada, mas, na verdade, não deixa de ser uma releitura, considerando ainda o lado autoral e artísticos do próprio filme. Afirmar que produções audiovisuais nunca serão tão boas quanto as literárias precisa ser feito com cuidado, e rever o que é considerado. Se for apenas o aspecto fidelidade a sensação sempre será negativa, mas se levar em conta a originalidade e a adaptação como forma de arte, o resultado satisfatório poderá ser alcançado.

Para o professor o maior problema recentenesta relação entre livro e filme não é sua correta adaptação, e sim a descaracterização dos estilos literarios atuais. Apesar dos ocorrentes fenômenos de grande venda literária, o cinema chama muito mais atenção que o livro, por mais que haja criticas, as salas da grande tela são muito mais procuradas que as livrarias. Isso esta gerando outro fenômeno, as literaturas estão utilizando cada vez mais do cinema para vender seus exemplares, nisto alguns livros estão perdendo seu estilo literário para serem produzidos já em uma linguagem cinematográfica. “É como se fosse uma amputação da linguagem literária, não se escreve um livro pela literatura e sim como um produto pronto para o cinema”. Alerta o professor de Crítica de Mídia, Allan Novaes.

Na sua opinião a última adaptação que lhe agradou foi a do diretor Fernando Meirelles do livro Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, e também a série Capitu da Rede Globo. Já as duas releituras que não vingaram foram Percy Jackson em O Ladrão de Raios, e a saga Crepúsculos, que, na sua visão, são livros já formatados para linguagem para o cinema.

Enfim, se livros adaptados para filmes funcionam ou não, apenas a comparação entre a obra literária e o roteiro cinematográfico não é suficiente, precisa compreender bem a essência do livro para exigi-la no filme. Afinal são duas artes de segmentos diferentes, características peculiares, recursos e limitações destintos, mas com um único propósito, entretenimento. Cabe ao leitor ser um bom espectador, e ao espectador um asiduo leitor.

Allana Ferreira

Piores adaptações

A revista norte-americana Entertainment Weekly elaborou uma lista com as 23 piores adaptações de livros para o cinema. Confira as 10 primeiras colocadas:

1. A Bússola de Ouro (2007)

2. O Código da Vinci (2006)

3. Amor em Jogo (2005)

4. Memórias de uma Gueixa (2005)

5. O Som do Trovão (2005)

6. Tróia (2004)

7. Bridget Jones - No Limite da Razão (2004)

8. Vanity Fair - Feira das Vaidades (2004)

9. Revelações (2004)

10. O Gato (2003) e O Grinch (2000)

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